O centro histórico do Rio de Janeiro passa por inúmeras mudanças. Muitas delas são, para além de visíveis, monumentais. Como a nova orla Luiz Paulo Conde, reconectando os cariocas com seu local de nascedouro, a baía de Guanabara. Com mais de 300 mil metros quadrados de espaço para pedestres e com cerca de 3 km de extensão, reabilita vasto território urbano central outrora oprimido pela estrutura da via expressa elevada, a Perimetral, convertendo-o em novo lugar de desejo. A praça Mauá é o epicentro dessa vontade de encontro, urbanidade, cultura, diversão e descanso. O Porto é a nova praia do Rio. A generosidade atual da cidade é urbana. Além disso, existem novos museus, como o Museu de Arte do Rio e o Museu do Amanhã, ambos grandes sucessos de público.

Entretanto, as mudanças do centro do Rio também tratam da reconquista de espaços ora ociosos ou esquecidos por pessoas, empreendedores culturais, artistas, “festeiros”, designers e arquitetos. Há um reencontro do carioca com sua centralidade histórica e consigo mesmo. Esses novos caminhos são antigos; têm quatro séculos. São formados e configurados pelo esforço coletivo de criar a cidade que há em nós, fazendo da nossa imperfeição individual um movimento mais-que-perfeito coletivo. Será que percebemos essas ações?

Conjunturas de transformações urbanas especiais suscitam muitas dúvidas. Há desconfiança no modo como os governos implementam novas infraestruturas. Há ruídos e desinformação, as redes sociais catalisando a frustração. Cria-se muito rapidamente insensibilidade para perceber os novos contextos, que muitas vezes estão nas ruas, gritando alegremente “Venha!”. Se há o monumento, há mutuamente o comunal. Cidades são compostas por essas duas dimensões em contínua busca por equilíbrio. 

Quando os sentidos atrapalham-se, vale a pena ver com os pés, sábio ditado português. São novos caminhos e roteiros que surgem exibindo a beleza crua desse movimento de ocupação da cidade. Do bairro da Glória à praça da Cinelândia e nos arredores da praça Tiradentes existem iniciativas que mostram o vigor do processo de reconquista desse território tão esvaziado do uso residencial e que apontam o reavivamento sustentável do centro histórico.

Roteiro da Glória
Na Glória, destaca-se a reabilitação do conjunto arquitetônico da Villa Aymoré, por décadas abandonado, que a Landmark Properties trouxe de volta à vida, mostrando como edifícios históricos são ótimos investimentos e oportunidades mais orientadas para o nosso tempo – o valor cultural como o quarto vetor oculto da sustentabilidade. Não é a toa que lá se instalou o Arte Clube Jacarandá, um misto de galeria com editoria de revista e clube de acesso a obras de artistas contemporâneos via múltiplos e reproduções. 

De lá, caminhando (o melhor jeito de conhecer o centro) pela rua da Lapa, visita-se o Refettorio Gastromotiva e, pela oculta rua Morais e Vale, onde um dia morou Manuel Bandeira, descobre-se a nova galeria de Paulo Branquinho, que é núcleo de um belo processo de criação de pertencimento pelos moradores do local. Dali até a rua Visconde de Maranguape, próximo ao largo da Lapa, é possível maravilhar-se com o belo Hotel 55 Rio, que reabilitou o antigo Hotel Bragança, o preferido dos senadores quando o Rio era capital, e o Senado logo ali, no Palácio Monroe.

Seguindo pela rua do Passeio Público, limite com o jardim de mesmo nome, pode-se apreciar um teatro musical no novo Teatro Riachuelo, ocupando o antigo Cine Palácio, com exemplar restauro tanto dos aspectos internos como da curiosa fachada em estilo neomourisco realizado pelo arquiteto Adolfo Morales de Los Rios em 1901. O que um dia foi a meca do cinema no Brasil, a Cinelândia, hoje é quase uma “teatrolândia”, onde ainda brilha com intensidade o Teatro Rival, gerido pela terceira geração de donos. É lá que terminamos este primeiro passeio, divertindo-nos nos imperdíveis teatro de revista que a casa resgatou, como nas ótimas festas que ocupam a rua Álvaro Alvim, onde se localiza o espaço.

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