As cidades não são fruto do planejamento. Essa talvez seja a maior das decepções dos arquitetos em sua busca utópica pelo desenho capaz de organizar o território, ordenar fluxos, promover espaços para as pessoas e dar solução à cultura material que resulta do sedimento de memórias comuns. Não é um desafio pequeno. E assim move-se a arquitetura.

As cidades são negociações concomitantes, contínuas e complexas, que agem e reagem em vetores ora díspares ora uníssonos. Nelas, o projeto é somente um componente – não o magistral, o sublime –, mas aquele que pode garantir, nesse sistema de orquestrações simultâneas, um lugar, um sentido, um pequeno tempo de humanidade.

O escrito italiano Italo Calvino fala em seu livro As Cidades Invisíveis sobre como, no inferno, haveria apenas dois modos de ser: tornar-se parte e esquecer, ou identificar aquilo que não é caos, dar-lhe forma, garantir-lhe espaço e permitir que floresça.

Essa é a resistência que os arquitetos podem impor em conjunto com a sociedade civil: assegurar que novas formas materiais abracem contextos sociais existentes, oferecendo-lhes qualidade para perdurar e para converter-se também em cultura.

Os meios para sobrepujar as bárbaras agressões não residem apenas na quantidade e na massificação das injustas cidades brasileiras, mas também na promoção de inflexões nas brechas da cidade, nos espaços intersticiais (“opacos à razão”, como dizia o geógrafo Milton Santos), para despontar sinais de vitória da vida sobre o inferno.

É assim, num pequeno lote municipal, de 5,5 por 50 m, esquecido na Lapa, centro histórico do Rio de Janeiro, que o Metro Arquitetos deu forma a um especial arranjo para a proposta de gastronomia social do RefettoRio Gastromotiva, belo enfrentamento sobre o vazio da desumanização das cidades que David Hertz e Alexandra Forbes, em parceria com o chef italiano Massimo Bottura, criaram e desenvolvem.

Combater o desperdício de alimentos, oferecer refeições de graça e com dignidade, para população em situação de rua ou em contexto de vulnerabilidade social, treinar pessoal de cozinha, oferecer cursos, acolher e demonstrar a gastronomia como gesto cultural, como economia e, principalmente, como campo simbólico da humanidade são os significados universais e particulares desta iniciativa.

No alvorecer de um planeta urbano, tecnológico, “big data”, com tantas transformações disruptivas, como necessidade de reinvenção das próprias práticas democráticas, nada parece ter mais relevância do que nos reconectarmos com a escala humana da confecção do território: caminhar, comer, compartilhar, colaborar, manufaturar, falar e escutar. Saudar-nos.

Esses são valores que o industrioso século 20 não conseguiu elucidar: constituir brechas, não apenas na cidade, mas também nos modos de conviver e do que priorizar. Num mundo com perspectivas de esgotamento ambiental, talvez nada seja mais urgente do que observar a profunda singularidade nessas organizações, que podem ser fruto de modismos, mas que são plenas em urbanidade.

Leia a matéria completa de Washington Fajardo sobre o Refettorio Gastromotiva na Bamboo de novembro, nas bancas.