A beleza natural da região do lago de Como, aos pés dos Alpes Réticos, ao norte de Milão, seduz viajantes e estetas há séculos. Os cumes pintados de neve se desenrolam em encostas forradas por florestas salpicadas por vilarejos pitorescos e belas villas históricas, cujos jardins se derramam em direção às águas verdes do lago em forma peculiar de ‘Y’. Historicamente o cenário cativou de imperadores romanos a artistas e escritores como Leonardo da Vinci e Stendhal e, embora muito próximo à capital do design atual, a região não teve sua paisagem marcada por contornos contemporâneos; são os prédios centenários e as imponentes villas construídas por aristocratas que definem a experiência arquitetônica do local.

O design, a arte e a arquitetura são importantes indicadores culturais do estilo de vida, dos hábitos e dos valores de diferentes comunidades. Para a designer espanhola radicada em Milão Patricia Urquiola, um processo de cinco anos absorvendo a aura da região de Como acaba de se concretizar com a inauguração do mais novo hotel às margens do lago, ao lado da vila de Torno e a poucos quilômetros da cidade que dá nome ao imenso corpo de água. O Il Sereno, primeiro hotel com arquitetura contemporânea por lá, já traz em seu nome a tranquilidade que propõe aos seus hóspedes, com o benefício da paisagem estonteante do entorno. Coube à sensibilidade da designer, adepta frequentadora da região, traduzir os valores e tradições locais em uma estética atual que não agredisse a topografia e a história que há tanto tempo encanta quem passa por ali.

As cidades e vilas da região da Lombardia acolhem alguns dos mais talentosos artesãos e marceneiros do país, que trabalham as exímias matérias-primas com tradições artesanais únicas. “Uma das coisas mais importantes deste projeto é que ele está enraizado na cultura local e na natureza ao redor. A intenção principal era a de construir não um ‘hotel de luxo’, mas um lugar que expressasse a alma deste lugar, que fosse coerente com a sua identidade”, contou Urquiola. É no ancoradouro de pedra que já existia, torneando as margens do terreno, que está atracado o conceito do projeto, que prima pela articulação integrada entre os volumes construídos, a pedra que pauta a área, o lago e a natureza ao redor.

“O sistema de valores do Il Sereno é amplo, maior do que o necessário para simplesmente criar um produto de alta qualidade – isso está implícito. Esse sistema oferece e organiza experiências. Quero emocionar e imprimir na memória das pessoas as sensações vividas aqui. Busquei trabalhar com a memória afetiva, criar um vocabulário coerente que provoque emoções. O projeto é sóbrio – pois Como é assim. As texturas, cores e materiais exprimem a sua herança. Quis criar possibilidades de conexão com a água e com a pedra, sempre presentes. O prédio tem muitos recortes que trazem o exterior para dentro, e a escala não é monumental, é humana.”

Leia a coluna completa de Camila Belchior na edição de outubro da Bamboo, nas bancas.