Vinicius Andrade e Marcelo Morettin completam 20 anos de escritório próprio com uma prática intensa de projetos. Além do Instituto Moreira Salles, complexo cultural na avenida Paulista com abertura em 2017, os arquitetos têm, a despeito dos anos de crise, edifícios, residências e outros programas em andamento. Nessa diversidade de contratos e escalas, sobressaem-se nos projetos os traços de uma arquitetura feita com clareza construtiva, concisão de recursos e, sobretudo, contínuo desafio tecnológico como motor de pesquisa para uma nova espacialidade. 

O acervo da dupla ganha neste mês publicação comemorativa, editada pela BEI, na qual obras selecionadas do Andrade Morettin Arquitetos são apresentadas junto a entrevista e texto dos próprios autores, e um ensaio de Edwin Heathcote, crítico de arquitetura do Financial Times. O livro resume intenções presentes na aurora da sociedade que decantaram em seus projetos ao longo de duas décadas.

O texto escrito por Andrade e Morettin, Arquitetura nos Trópicos, é mais uma carta de intenções do que um manifesto. Os arquitetos se amparam menos em postulações teóricas baseadas no histórico debate entre tradição e ruptura da arquitetura moderna, para focarem em uma observação empírica da arquitetura popular feita nas latitudes que definem a zona tropical úmida. A partir de análises acerca da persistência de elementos constitutivos das residências feitas nessa zona climática ao redor do globo, os arquitetos revelam a inteligência que serve de inspiração atemporal para a produção de edifícios. “Para além da motivação cultural que a inspira”, escrevem, “essa arquitetura ensina valiosas estratégias bioclimáticas que têm nos servido como guia para a boa adaptação ao meio”. 

Junto do texto se apresentam imagens de casas sobre palafitas, com fechamentos leves, beirais e ventilação cruzada e esquemas de cortes típicos de construções vernaculares, nas quais se demonstra engenhosidade diante da realidade climática existente nos trópicos. Na sequência, o livro detalha cinco projetos construídos entre 1997 e 2016.

Reforçando a preferência pela leveza, os arquitetos apresentam nesta Bamboo sua mais recente obra construída: uma residência em São Paulo, feita sobre um declive, cujas soluções resumem características basilares presentes em seus projetos. A rua de acesso da casa (fotos nas páginas seguintes) fica na cota mais alta do terreno, na qual os moradores deixam os veículos e acessam a cobertura, uma pala de telha metálica sanduíche que paira sobre todo o conjunto. Uma passarela cria o acesso sobre o vão existente entre o muro de arrimo e o volume principal da casa – uma caixa solta de dois andares, contendo os dormitórios e seus programas de apoio na parte superior e a sala no piso inferior. 

O corte longitudinal, esboçado por Vinicius durante a entrevista, revela o quanto a beleza da intervenção se sustenta no jogo de cheios e vazios: a pala passa por cima do volume fechado e cria duas áreas livres, uma conformada pelo muro de arrimo, criando um pequeno pátio, e outra a oeste se abrindo para a amplitude da cota baixa e integrando as áreas comuns do edifício com o entorno arborizado que marca o condomínio. 

Todas as soluções são em painéis leves: forros de compensado naval, fechamentos externos em telhas metálicas e panos de vidro. A singeleza da articulação dos sistemas de montagem contrasta com a força da pala: duas telhas invertidas lançam as águas numa larga calha central metálica que, por sua vez, distribui as saídas de águas pluviais em três pontos, remontando as típicas coberturas industriais.

Embora sejam evidentes as conexões entre as formas e soluções do escritório para este projeto e tantos outros do seu acervo técnico, é possível ver nelas um tom provocativo: como conceitos elementares resultam em uma obra tão variada? E mais: como essa elementaridade foi absorvida dentro do escritório? Com essas questões como pano de fundo, os sócios do Andrade Morettin Arquitetos falam a seguir sobre os anos de formação, seus processos criativos e o livro inédito.

Leia a entrevista completa com os arquitetos do Andrade Morettin na edição de outubro da Bamboo, nas bancas.

Andrade Morettin: Cadernos de Arquitetura
Editora BEI, 208 págs., R$ 120
Lançamento dia 29 de outubro, às 11h, térreo do edifício Box 298 (R. Wisard, 298, São Paulo)