Por indicação de meu amigo português Frederico Duarte, crítico e curador de design, assisti a uma palestra da escritora nigeriana Chimamanda Adichie no TED. O título da fala, que já teve mais de um milhão de acessos, é “O perigo da história única”. Recomendo vivamente a todos, pois Chimamanda dá uma verdadeira aula sobre a ameaça das visões parciais e estereotipadas a respeito de países e pessoas. “O problema do estereótipo não é ser errado, é ser incompleto”, diz ela.

Essa história toda surge a respeito da questão da identidade do design brasileiro. Em agosto passado, dei um curso no Sesc SP sobre Design e Brasilidade. Fiquei surpresa com o interesse provocado. As oito horas-aula do curso, apesar de um tanto estendidas a cada encontro, se revelaram insuficientes para um tema complexo, que necessariamente deve incorporar muitas nuances. Creio que a armadilha principal em que se pode cair nessa discussão é justamente optar por uma interpretação do tema no singular, ou seja, na “história única” de que fala Chimamanda.

Visões diferentes e às vezes opostas convivem na interpretação desse tema. Joaquim Tenreiro advogava leveza para o móvel moderno brasileiro, com base no uso de estruturas de madeira super delgadas e da palhinha. Já Sergio Rodrigues optou pela recuperação da tradição ibérica de móveis robustos, pesados, e por sua adaptação às novas demandas por informalidade que começavam a surgir no Rio de Janeiro dos anos 1950. Na busca deliberada da brasilidade, Sergio bebeu na tradição popular, do banquinho de leiteira no banco Mocho à rede transposta a várias criações, das quais a mais famosa é a poltrona Mole. 

O caminho dos irmãos Campana é, desde o início, tirar partido da precariedade e da falta de acesso a tecnologias sofisticadas para criar. Nada mais do que a prática popular brasileira da “inventividade como estratégia de sobrevivência”, na expressão sintética e feliz do designer e pensador Aloisio Magalhães. Na loja Espasso, que é uma ponta de lança do design brasileiro no exterior (atualmente com unidades em Nova York, Miami, Los Angeles e Londres), a maioria dos móveis e objetos brasileiros ali encontrados não comungam dessa cartilha. Carlos Motta, Arthur Casas, Claudia Moreira Salles, Isay Weinfeld, Lia Siqueira e Fernando Mendes, para citar alguns, optam por outros caminhos, mais ligados às veredas abertas pelos mestres modernos. E nem por isso são menos “brasileiros”.

Leia a coluna completa de Adélia Borges na edição de outubro da Bamboo, nas bancas.