Poucas casas no mundo têm tanta história pra contar como a casa Bernardes. Mais raras ainda são aquelas que tornaram-se testemunhas tão significativas de uma época e de uma cidade.

Construída no início anos 1960 por um Sergio Bernardes no auge de sua carreira, a casa que leva seu nome imediatamente se tornou icônica, representante de um Rio de Janeiro efervescente em sua fase áurea, e da arquitetura de um país que, junto com outras poucas nações, inscreveria o modernismo no mapa do mundo. 

Nas décadas de 50 e 60, Bernardes concorria com Oscar Niemeyer como o grande nome da arquitetura brasileira – uma concorrência sempre afetuosa e saudável. Entusiasmado, porém, pela arquitetura residencial e pela escala humana desse programa, logo se destacou na produção numerosa de casas inovadoras e de altíssima qualidade. 

Esse destaque o levou a ser convidado a projetar um condomínio horizontal de oito apartamentos em uma pequena península debruçada sobre o mar na avenida Niemeyer, que ligava o então proletário bairro do Leblon a um inexistente São Conrado. A avenida já era familiar ao arquiteto, também dublê de piloto de carros de corrida, e integrava o Circuito da Gávea, popular circuito de rua, também conhecido como Trampolim do Diabo, onde Bernardes competia com a sua “baratinha”. Apaixonado pelo local, deu um jeito de comprar o lote extremo e viabilizar a construção de sua própria residência, onde moraria com sua mulher Clarice e seus três filhos, Christiana, Serginho e Claudio. 

A intensa vida social inerente ao exercício daquele que foi o escolhido pela elite carioca para desenhar as suas melhores moradias transformou a casa da Niemeyer na grande embaixada cultural do Brasil. Era frequentada por empresários e intelectuais que, àquela época, andavam de mãos dadas. Embaixadores, banqueiros e também artistas batiam ponto nas recepções do casal, como os Kennedy, Farah Diba, Tom Jobim, Vinicius de Moraes ou até mesmo os Mutantes, que dali fizeram seu estúdio de ensaios. Le Corbusier era presença frequente. Reza a lenda que Brigitte Bardot foi expulsa aos gritos por Clarice enquanto transava com Serginho pelos cômodos da casa.

Bernardes se orgulhava da casa desenhada para abrigar seus filhos: “Dei-lhes de presente o horizonte”.

No entanto, todo esse glamour temperado pela inquietude dos grandes gênios foi o responsável pela primeira grande ruptura na vida do arquiteto. No dia seguinte à comemoração de suas bodas de prata, abandonou a casa e a esposa deixando uma dramática carta de despedida que – a família me perdoe – eu considero uma de suas grandes obras.

Leia a matéria completa sobre Sergio Bernardes na Bamboo de dezembro, nas bancas.