“Moro dentro de uma instalação”, conta o antiquário Rafael Moraes, 34. Ele poderia estar falando de seu apartamento em São Paulo, onde cada peça e detalhe encerram uma narrativa que ele desfia com deleite. Mas o objeto de nossa conversa é seu lar carioca, habitado ao longo de 50 anos por dois dos maiores autores da literatura brasileira: Jorge Amado e Zélia Gattai. 

Quase tudo do cenário em Copacabana segue intocado – não apenas o mobiliário e a coleção de arte popular, mas também a biblioteca e a escrivaninha onde Jorge escreveu inúmeros romances. O apartamento, aliás, figura em Navegação de Cabotagem, de Jorge, e em Chão de Meninos, de Zélia.

Rafael conta que quando comprou o imóvel, em 2009, Paloma Jorge Amado, filha do casal, retirou as obras de Picasso, Portinari e Di Cavalcanti, mas a memória afetiva permanece toda ali. 

É o caso dos Exus de ferro que Mãe Senhora veio da Bahia plantar para Jorge e Zélia. Foi lá que Rafael se apaixonou pela vida e obra da mais reconhecida ialorixá brasileira.  

“Como antiquário, pesquiso a presença do negro na cultura brasileira, que é ignorada até hoje. Os brasileiros em geral acham que a África é um país, e não um continente. A relação que temos com o lugar da miscigenação e sua arte é difícil. Esse ponto marginal sempre me interessou.” 

A valorização da cultura afro-brasileira é um traço que Rafael compartilha com o antigo proprietário de seu apartamento e autor de Jubiabá, que, além de dar vida a personagens descendentes de africanos, como Antônio Balduíno, criou uma lei de liberdade de culto, na década de 1940, quando foi deputado federal pelo PCB. Antes da lei, terreiros de candomblé eram queimados impunemente por aqui. 

“Morar neste apartamento abriu muitas portas, não só culturais como também espirituais. O lugar carrega muita energia.” Não à toa, foi um amuleto que ligou Rafael a Paloma, durante um leilão. Sentada ao seu lado, ela elogiou a figa que o colecionador trazia no peito. Quando ele contou que o talismã era de origem baiana, ela disse também ser, “quase” – já que nasceu em Praga, quando o Partido Comunista se tornou ilegal e os pais foram exilados na Europa. 

No dia seguinte ao leilão, Rafael recebeu um telefonema inesperado. “Cheguei em casa, vi a figa de papai e pensei em você, quero que fique com ela”, disse Paloma. O presente veio acompanhado de um convite irrecusável: “Estou desmontando o apartamento que era dos meus pais e não vou poder sair daqui, você vem pegar?”. 

No fatídico dia, Rafael chegou às dez da manhã e saiu às seis da tarde, embalado por histórias e tocado por uma sensação de pertencimento ao lugar. Quis saber qual seria o destino do imóvel e logo revelou seu interesse quando Paloma disse que teria de vendê-lo. Sentia que seu ciclo em Santos, cidade onde nasceu, tinha se encerrado. Ao mesmo tempo, visitava o Rio nos fins de semana para participar de feiras de antiguidades, e queria morar na Baixada Fluminense desde que tomou gosto pelo Corujão da Poesia, sarau apadrinhado por Jorge Ben Jor. 

Foram seis meses de angústia entre o primeiro contato com Paloma e a escritura. Antes de se mudar, Rafael restaurou em poucos meses o imóvel do edifício Sumaré, que já tinha sido reformado antes, com base em um projeto do então melhor amigo de Jorge, Oscar Niemeyer. 

O santista conta que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir já se hospedaram ali, assim como Pablo Neruda e Amália Rodrigues. Vinicius de Moraes, quando cantava no Beco das Garrafas, entre uma banda e outra subia para visitar o amigo Jorge Amado. Na hora de fechar a compra, Rafael disse a Paloma: “Que pena não ter vista pro mar...”, ao que ela respondeu: “Você tem uma vista muito melhor. Tá vendo ali? É onde nasceu a Bossa Nova”.

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