No vão do Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo, uma enorme mesa apoia livros e papéis despedaçados, todos negros. Ao seu redor, caixas de som reproduzem ruídos de folhas sendo rasgadas, afirmando ao público que uma ação se estabeleceu ali. A obra - ou melhor dizendo, seu registro - é resultado da performance Ruptura, idealizada pelo artista mexicano Hector Zamora, para abrir sua mais nova exposição individual no Brasil, Dinâmica Não Linear, em cartaz até dia 2 de janeiro.

Cento e cinquenta pessoas vestidas de preto se concentraram nos três andares do edifício histórico do CCBB para realizar a performance no dia 2 de novembro, data da abertura da exposição. Rasgando folhas do livro e as jogando no centro do vão, representavam a crítica do artista à situação atual do país, marcada por crises e divisões na política e na economia. Assim como toda transformação deixa rastros na história, os resquícios de Ruptura deixados no local são também uma mensagem de Zamora ao poder de evocação da memória.

Boa parte das 24 obras selecionadas para a exposição também são registros. Conhecido por trabalhos site specific em grande escala, muitas vezes realizados com a participação do público, Zamora explora questões antropológicas e culturais como o espaço da cidade e o papel social do trabalhador por meio de performances emblemáticas e atreladas a um tempo e local específicos. Transportados para o museu, vídeos, fotografias e maquetes realizam o papel de recriar os trabalhos e apresentá-los ao público.

Entre eles está a obra Inconstância Material, que ocupa uma sala individual na exposição. Gravada na Galeria Luciana Brito, em São Paulo, a performance apresenta vinte trabalhadores da construção civil arremessando tijolos uns para os outros, o mais rápido possível, para criar um circuito dentro do espaço expositivo. "Zamora aborda frequentemente a imagem do trabalhador, em especial das esferas mais baixas e marginais, para fazer uma crítica a essa cadeia produtiva", comenta o curador Jacopo Crivelli Visconti.

Imagens relacionadas à construção civil são bastante frequentes nos trabalhos do artista, em especial a do tijolo. Em Todo Belga Nasce Com Um Tijolo no Estômago, fotografias revelam formas de apropriação espontâneas do objeto por parte de pessoas na Bélgica. Já em Seis, obra de caráter escultórico, Zamora explora possibilidades de configuração por meio de diferentes recortes do objeto, um exercício de matriz geométrica bastante comum em seu trabalho. "O tijolo não é somente uma referência à arquitetura e ao espaço, mas também ao nosso contexto social. Todas as culturas, independente do formato ou da materialidade, se apropriaram desse objeto para a construção de sociedades", explica Zamora.

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