O e-mail com o endereço elucidava o complicado arranjo espacial de Santa Teresa: “Em frente à escola Machado de Assis. Casa cor de tijolo, portão de grade”. Aninhado em um morro, o bairro no centro do Rio é um mundo à parte da cidade grande. Observa-a do alto.

“Santa Teresa é um microcosmo. A noção do tempo aqui é diferente”, diz o mineiro Zemog, que há 18 anos firmou moradia, junto a Rita Dias, a algumas quadras do atual ateliê do casal – o que responde ao endereço munido de referências. Chegamos a um simpático sobrado de dois andares debruçado sobre as casas vizinhas e invadido pelo azul do mar longínquo – na vista entremeada pela Lapa, a Glória e a Urca. “Temos fascínio pelo mar, mas não gostamos de praia urbana. Esse é o nosso cenário perfeito”, diz ele.

A atmosfera do ateliê é caseira; no salão, só a quantidade inusual de mesas e cadeiras aponta o contrário. O espaço é utilizado para receber os amigos em jantares que se tornaram famosos entre a turma de artistas da cidade. Podemos nos perder por minutos nos detalhes: objetos garimpados se transformam em penduricalhos de luminárias, cadeiras são estofadas com tecidos inesperados, uma caixa com a inscrição “Frágil” faz vezes de mesa de apoio. 

O artista Zemog é um autêntico bricoleur: desde os anos 1980 produz assemblages – às vezes utilitárias –, uma “arte povera” a partir de tampinhas, cartelas de jogo do bicho, fitinhas do Bonfim. “Tive uma infância no mundo analógico. Frequentava ateliês de artistas locais: sapateiro, alfaiate, celeiro, ferreiro”, diz ele, nascido em 1957 na pequena São Domingos do Prata.

O ateliê nunca está igual. Não raro, parte da decoração é vendida durante os jantares. Zemog e Rita exercitam em tudo a falta de rigidez: se dão adeus a uma escultura, criam uma nova. Quase semanalmente, mudam a disposição das peças, até mesmo pontos de luz. “Móvel é para mover”, ele diz, enquanto corta com destreza um caju para preparar caipirinhas.

Os dias do casal são entretidos entre a criação, os afazeres domésticos – que lhe são perfeitamente prazerosos –, e as andanças pela cidade sobre a qual mantém uma deliciosa postura estrangeira. A arquiteta Bel Lobo, amiga deles, conta que uma vez combinaram de se encontrar no Talho Capixaba, no Leblon, e Zemog e Rita apareceram a pé, depois de cerca de 14 km percorridos. Mineiríssimos, não fogem ao jargão de que tudo “é logo ali”, subindo e descendo colinas sem morrer na praia. 

“Quem convida dá banquete”
Mas a atitude que mais conta sobre a personalidade do casal, que coleciona amigos e dispensa rótulos, é dar banquetes. Uma semana antes fazem os convites, pedindo RSVP para terem a mesa completa, pois o serviço é à francesa, com lugar marcado e pratos servidos montados. 

Chegam a convidar 50 pessoas de uma só vez: “iniciados” juntam-se a novos conhecidos, em listas improváveis. “Gente de facções diferentes, arte, moda, arquitetura, teatro, televisão”, diz outra amiga, Zazá Piereck, dona do Zazá Bistrô. São mestres em deixar todo mundo à vontade, evitando as panelinhas e abrindo alas à empatia, e dando trela a todo tipo de papo. E fazem tudo sozinhos. Ajudantes, só se forem convidados, como uma fiel frequentadora que carinhosamente apelidaram de “empregada confiada”. 

Igualmente importante é ter fartura – “quem convida dá banquete”, brinca Zemog. Era assim na casa da avó de aristocracia rural. Ele comanda com tranquilidade as panelas que vão alimentar dezenas. Há um método: no dia da nossa visita, tudo já estava pré-preparado para o delicioso bacalhau que iria nos servir de almoço. Uma arte que ele desenrola com uma desenvoltura de dar gosto.

Leia a matéria completa na Bamboo de dezembro, nas bancas.