Dois globos de aço sobrepostos, unidos por um ponto e conectados a quatro paredes de prateleiras, sobre as quais se equilibravam mais de 1500 objetos distintos. Até as 20h do dia 4 de outubro, quem passava pela instalação O Globo da Morte de Tudo, no Sesc Pompéia, se deparava com a inusitada instalação, feita pelos artistas Nuno Ramos e Eduardo Climachauska. Após esse horário, a surpresa: a obra já não era a mesma.

A data estipulada marcava o início de sua segunda fase. Um mês após sua abertura, a instalação tornou-se palco para um evento performático, onde dois motoqueiros se apropriaram do espaço da obra e giraram dentro dos globos da morte. Observados atentamente por uma vasta e ansiosa multidão, acomodada na sala de convivência do Sesc, o ruído e a trepidação provocados pela ação encadearam o despencamento dos objetos, que se destruíam ao cair no chão. “A obra traz um aspecto cômico, um fundo de raiva, com a sensação de querer que tudo vá pro inferno”, destaca Nuno Ramos.

A ação ruidosa da performance chama a atenção para a dualidade da obra: de um lado, a escultura rígida em aço e, do outro, os inúmeros e frágeis objetos. Para Nuno, a constante tensão entre os dois universos culmina no desejo de se livrar de tais excessos, encontrando o equilíbrio na destruição.

A própria materialidade dos objetos já revela seu propósito final. Divididos em quatro categorias, todos os elementos utilizados empregam materiais que facilmente se quebram. A cerâmica, representada por instrumentos agrários e materiais de construção, faz referência ao arcaico e ao trabalho manual; a porcelana, presente em frascos e materiais de decoração, é uma alusão ao luxo e ao que já está fora de moda; o nanquim, inserido em inúmeros recipientes de vidro, remete à morte; e por fim, a cerveja, traduzida em troféus, bolas de sinuca e eletrodomésticos, exprime os objetos ligados à vida cotidiana.

Reunidos, os objetos realizam um inventário da cultura contemporânea prestes a desabar. Para Climachauska, a destruição dos itens proporciona a eventual mistura de seus fragmentos no chão, emergindo do processo uma nova matéria. “Surge uma fusão dos materiais, uma mistura de cores, líquidos e texturas, existindo uma outra organização que independe da nossa vontade”, conclui o artista.

sescsp.org.br/pompeia