Com a delimitação que tem hoje, Johanesburgo, na África do Sul, é uma cidade muito nova, consolidada em 2000. Diversificada e surpreendente, a capital sul-africana expressa como poucas no mundo a capacidade que a conjunção entre políticas públicas, investimentos privados e iniciativas da população tem para transformar a qualidade de vida na cidade.

A formação de Johanesburgo remonta à descoberta de ouro em 1886 e à migração de milhares às minas. A segregação racial existia antes mesmo de uma África do Sul unida – havia colônias britânicas e estados bôeres (de ascendência holandesa) e, em 1910, após árduas guerras, o território se tornou a União Sul-Africana. Sob domínio dos ingleses, Johanesburgo prosperou. Mas o fim da Segunda Guerra Mundial deu abertura para que o Apartheid – regime oficial de segregação racial – se instalasse no país, em 1948. Ele declarava que negros nativos não eram cidadãos sul-africanos e que, impelidos a morar em townships (comunidades de segregados negros e de outras etnias) nas periferias, precisavam de um documento especial que permitia a entrada temporária em Johanesburgo a fim de cumprir a jornada de trabalho.

Por lei, as indústrias localizadas dentro da cidade só podiam contratar até seis negros. No decorrer do século 20, o declínio que impactou os modelos de produção ao redor do mundo também afetou a cidade, mas o seu ocaso é indissociável do Apartheid. O país obteve independência em 1961, mas a segregação permaneceu, e o governo introduziu incentivos fiscais às indústrias de Johanesburgo para que se mudassem para mais próximo das townships, onde viviam os operários que agora poderiam contratar sem imposições de quota. O estímulo desencadeou o declínio social e econômico da região central, que se alastrou por décadas, e uma política discriminatória que levou à eventual extração do investimento estrangeiro. Nos anos 80, o êxodo de empresas internacionais e de expatriados deixou para trás uma enorme carcaça vazia.

Revitalização
Em 1990, o Apartheid foi abolido e, quatro anos depois, vieram as primeiras eleições. De 1995 a 2000, os limites da cidade foram redesenhados muitas vezes até se chegar à configuração atual. A Johannesburg Development Agency apostou em melhorias de áreas públicas e transporte, que estimularam a volta da iniciativa privada e, a partir daí, um círculo virtuoso de revitalização se instalou na cidade. Em termos arquitetônicos, há algo de particular na regeneração dessas zonas defasadas: ela se deu menos pela construção de monolitos emblemáticos assinados por arquitetos estrelados do que pelas transformações do arsenal de prédios existentes, injetando uma nova camada de vida na cidade, do centro à periferia. 

Originalmente construídas sem saneamento básico nem eletricidade, as townships eram aglomerados abarrotados de pequenas casas de tijolos. A Southwestern Township, ou Soweto, ficou conhecida após as manifestações de estudantes negros em 1976, que deram visibilidade mundial à violência e à ideologia que ainda imperava no país. Hoje Soweto está incorporado oficialmente à cidade, e é um bairro vibrante e autêntico – as chaminés grafitadas da antiga usina servem de plataforma para bungee jumping e são símbolo de como uma das mais violentas comunidades do país se transformou. É possível conhecer o bairro todo de bicicleta. Há novas residências, áreas verdes para lazer e esporte, serviços, espaços culturais e memoriais como o Museu do Apartheid, que contam a trágica história em meio à qual viveram dois receptores do prêmio Nobel da Paz: Nelson Mandela e Desmond Tutu.

Leia a coluna completa de Camila belchior na Bamboo de novembro, nas bancas.