Frank Gehry sabe barganhar. Ele até oferece adotar “materiais mais baratos, se necessário” durante a apresentação de seu projeto no concurso para o Museu de Arte de Andorra. A cena aparece no documentário The Competition (2013), do arquiteto e cineasta espanhol Angel Borrego, com os bastidores dessa concorrência, que ainda reuniu Zaha Hadid, Jean Nouvel e Dominique Perrault. O arquiteto do Guggenheim Bilbao entende de mundo real e partiu para a ofensiva com astúcia.

Essa flexibilidade de um dos arquitetos com uma das assinaturas mais reconhecíveis no mundo explica o quanto de pragmatismo domina o negócio da arquitetura global. Projetar é resolver problemas, encontrar soluções e não apenas encantar com “o gesto”. Desde a debacle do movimento moderno, que sepultou sonhos autoritários de reengenharia social e de tratar cidades como tabula rasa, os arquitetos deveriam aprender que seu ofício depende de amplos conhecimentos de negociação. Com promotores, incorporadores, governos, leis, vizinhos, sociedade civil, empresários e usuários: não faltam atores com quem negociar. Nem quando os arquitetos modernos apoiaram regimes autoritários à esquerda e à direita os projetistas puderam fazer tudo que lhes viesse à prancheta.

Dois chororôs comuns à categoria no Brasil, de que arquitetos são hoje irrelevantes, e de que, sob as regras de mercado, nada tem lá interesse social, são desmentidos por experiências internacionais. Em várias das maiores cidades do mundo, arquitetos dão forma a espaços públicos financiados por entidades privadas, e têm enorme responsabilidade no resultado final.

No vasto rezoneamento que mudou as regras do que se pode ou não construir em 40% do território da cidade de Nova York, a gestão do prefeito Michael Bloomberg conseguiu tirar proveito da enorme valorização do metro quadrado. Junto com a permissão de se verticalizar e adensar boa parte das margens do Queens e do Brooklyn no East River, havia taxas embutidas para financiar a criação e manutenção de diversos parques à beira-rio onde antes havia piers, cais e velhas estruturas portuárias. Com as novas torres em regiões antes subutilizadas, surgiram diversos parques (Transmitter, Brooklyn Bridge, Hunters Point South). 

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