Mais do que construir avenidas, governar é conectar a sociedade com seus anseios de cidade e cidadania, mediando conflitos e contribuindo para mudanças mais profundas. A reflexão resume a experiência do arquiteto e urbanista Fernando de Mello Franco à frente da Secretaria de Desenvolvimento Urbano de São Paulo, na qual atuou nos últimos quatro anos, período da gestão do prefeito Fernando Haddad (PT). Eleito em 2012 em segundo turno com 55% dos votos, Haddad obteve neste ano 16,7% da preferência do eleitorado no primeiro turno. Com isso, cede o posto para o tucano João Doria, que garantiu vitória ainda na primeira rodada e assume a prefeitura no início do ano que vem.

A passagem pelo poder público permite identificar a trajetória de Mello Franco como uma das mais ricas e versáteis entre arquitetos e urbanistas brasileiros. Formado pela Universidade de São Paulo em 1986, ele criou o próprio escritório em 1991, o MMBB, em parceria com os colegas de faculdade Marta Moreira e Milton Braga. Conciliou as atividades profissionais com a sala de aula lecionando na USP São Carlos durante 13 anos. Em 2005, tornou-se doutor também pela USP com a tese A Construção do Caminho: A Estruturação da Metrópole Através da Conformação Técnica da Bacia de São Paulo, sobre os rios paulistanos.

Foi professor visitante em Harvard e curador do Urbem, Instituto de Urbanismo e Estudos para a Metrópole, centro de ação voltado à articulação de projetos envolvendo poder público, setor privado e sociedade civil. Em uma das reuniões do Urbem, conheceu Fernando Haddad, que pouco tempo depois o convidaria para se tornar secretário. Coube a Mello Franco a espinhosa tarefa de articular a revisão e aprovação do novo do Plano Diretor Estratégico, que dá diretrizes para o crescimento da cidade pelos próximos 16 anos, e conduzir a revisão da Lei de Zoneamento, responsável por determinar quais atividades são permitidas em cada área da metrópole.

Às vésperas da definição sobre quem ocuparia o gabinete do prefeito a partir de 2017, Mello Franco conversou com a Bamboo fazendo um balanço de sua atuação e um diagnóstico da cidade que entrega para o próximo secretário. A seguir, confira os principais trechos da entrevista.

Bamboo É relativamente raro ter um arquiteto como secretário municipal. Qual o seu balanço desse desafio?
Fernando M. Franco A gestão de Haddad chegou a ter quatro arquitetos como secretários. Então, se era raro, deixou de ser. Há duas questões aí, uma é ser arquiteto, e a outra é não ser um quadro político partidário. Em relação à primeira, foi organizado o chamado núcleo duro formado por cinco secretarias: Governo, Planejamento, Finanças, Negócios Jurídicos e Desenvolvimento Urbano. Isso permitiu que tivéssemos uma visão holística do governo.

B E sobre não ser um quadro partidário?
FMF Há o risco de cair na dicotomia entre técnico e político. Defender qualquer coisa apenas do ponto de vista técnico é um viés equivocado. Seria melhor tematizar o significado da palavra político. A língua inglesa distingue “politics” de “policy”. Profissionalmente, a experiência escancarou um outro universo. Primeiro, por me permitir sair de um campo profissional cada vez mais endógeno. E aprender os sentidos e os não sentidos da máquina pública foi uma experiência super rica.

B E quanto à arquitetura, o que mudou?
FMF Eu não consigo mais ver o projeto como um desenho. Um projeto é muito mais um campo de orquestração. Na cidade, o projeto revela os conflitos. 

A entrevista completa está na Bamboo de novembro, nas bancas.