qua, 9 de nov
Vik Muniz
criou o grupo Artzapp

Vik Boa tarde a todos! Este é o grupo para a Bamboo. Aqui vai a primeira pergunta: o artista, tradicionalmente, desenvolve o seu trabalho movido por sensações, percepções e sentimentos oriundos de seu entorno imediato: o estúdio, a rua, o bairro e a cidade onde vive. Eu me mudei para o Rio alguns anos atrás, inspirado pela complexa trama social da cidade e pelas possibilidades de engajamento com diferentes esferas de experiência social que a cidade oferece. O Rio também é uma cidade repleta de impressões visuais muito fortes. Sua beleza às vezes rouba a seriedade dos conceitos que desenvolvemos em torno dele. Eu queria ouvir de vocês sobre a relação da cidade como estímulo criativo do artista, e por que vocês escolheram o Rio como base de trabalho.

Carlito Carvalhosa Eu me mudei para o Rio, de São Paulo, há 14 anos. De saída gostei de escolher onde viver. No Rio há cheios e vazios. Morros, verde, água e cidade por todos os lados. Em São Paulo, a gente se pergunta, olhando aquela massa de prédios, onde seria o centro. No Rio, apesar de haver um centro, não há por que procurar por isso. Num lugar sem leste, para que centro? O leste é o mar. É uma cidade cheia de lugares. A pergunta que ouço quando conheço alguém no Rio é  “onde você mora?”, pois você pode sair de tal lugar, mas esse lugar não sai de você. O centro do rio é o umbigo do carioca.

Vik Acabei de imaginar mais uma linha de ônibus com a destinação do meu umbigo.

Carlito Além do túnel? É um prazer conversar com as pessoas aqui, que amam sua cidade. Se o espaço é uma multidão de histórias pessoais, o tempo é um só – agora. Combinar algo não faz sentido, para que travar o futuro? Tira-se a possibilidade de tudo de incrível que pode acontecer. Essa resistência à lógica da produção tem enorme potência. O Rio é uma cidade que resiste. Parece que há uma outra ordem, misteriosa, fascinante, não escrita nem dita. Que se vê na arte que se faz aqui. É uma grande cidade para se morar.

Vik Eu sempre falo que em São Paulo você faz amigos para sempre e no Rio você faz amigos o tempo todo.

Marcos Chaves Olá queridos. Começando aqui: eu nasci no Rio, em Santa Teresa, onde morei minha vida inteira. O centro sempre foi o meu centro. É para onde eu vou dar uma banda logo no primeiro dia da volta de uma viagem. Para cair na minha real. A rua é onde trabalho, e as ruas do Rio me ensinaram a olhar as ruas de outras cidades.

Além do centro, tem a floresta e a praia. Todos eles me inspiraram. A cidade continua me surpreendendo e sempre haverá uma vista ou um ângulo de paisagem inédito, parece interminável. Ao mesmo tempo, tantos lugares cheios de memórias, pessoais e históricas.

Concordo com o Carlito sobre essa outra ordem misteriosa que faz o Rio ter tanta personalidade. A cidade em que o Pizza Hut faliu, e onde aquelas ruas com as mesmas grandes marcas que existem em todas as grandes e médias cidades do mundo não conseguem se estabelecer.

Adriana Varejão Falando em memória, me sinto uma pessoa muito provinciana. Nunca me senti à vontade em terra estrangeira. Nasci no Rio, na rua Nascimento Silva, 110, em Ipanema. Me dá uma angústia danada habitar lugares sem memória pessoal. Preciso saber onde é a padaria da esquina, e chamar o balconista pelo nome. Dizem que quem nasce no Rio sente muita dificuldade de sair.

Marcos E todos que saem acabam voltando.

Adriana Sim. A verdade é que são poucas as cidades onde podemos construir relações na rua. A praia é um exemplo. Todo carioca tem sua praia. Os amigos que você encontra e conhece ali. Essa coisa de conhecer as pessoas pelo primeiro nome apenas!

Marcos Você conhece as pessoas já sem roupa. Rs.

Adriana Sim, pele a pele! É lindo isso. Mas nunca entendi o topless e a nudez serem encaradas de forma tão preconceituosa. O povo anda quase nu!!!

Marcos Me lembro de ir à praia só de calção, dinheiro e chave amarrados no laço.

Adriana A nudez é natural.

Marcos Mas desamparada por uma lei ridícula. Puro anacronismo.

Adriana Na verdade, a lei em si não restringe o topless ou a nudez. A interpretação da lei, do que é considerado ato obsceno, é que determina.

Marcos Mamilo masculino é permitido. O feminino não. Muito receio de que as coisas estão a caminho de piorar.

Adriana Logo neste momento em que o Carnaval de rua no Rio voltou a ter uma força enorme.

Marcos Vamos resistir. E vai ser lindo! Esse carnaval vai ser especial. Continuamos amanhã! Boa noite. Beijo.

Adriana Só dançando mesmo! Boa noite!

qui, 10 de nov

Luiz Zerbini Bom dia. Tenho uma amiga paulista que não acredita quando entra no ônibus um cara de sunga, chinelo, óculos escuros, sem camisa, suado, vindo da praia. Naturalmente, seminu. Uma cena típica carioca.

Vim para o Rio em 1982, com 23 anos, porque me apaixonei por uma carioca. Nasci na capital paulista. Foi a melhor coisa que podia me acontecer. Fiquei muito feliz. Me adaptei imediatamente. Minha maior dificuldade foi entender que não estava de férias.

Agora, estou no aeroporto indo para a Bahia. A vista da igreja da Penha que se tem daqui é maravilhosa. Poderia aparecer nas minhas pinturas. Aliás, nas da Adriana também. A escadaria da igreja é uma obra maravilhosa. Cavada na rocha. Uma obra minimalista. Poderia ter sido feita pelo Carl Andre.

Acho que está todo mundo dormindo ainda. O Marcos com certeza deve ter ido dormir de madrugada. Deve ter aproveitado a noite da Lapa.

O avião está parado na pista, atrasado, e vejo o Dedo de Deus pela janela. O céu está cristalino. Dá pra ver direitinho o contorno das montanhas. A pergunta do Vik parece estar sendo respondida enquanto o avião não sobe. Aqui tudo é estímulo visual.

Ninguém acorda... 

Leia o resto da conversa na Bamboo de dezembro, nas bancas.