As obras do metrô despejaram milhões de reais no largo da Batata, na zona oeste, transferiram um terminal de ônibus urbano, mas produziram um espaço desertificado e estéril. Em janeiro de 2014, um grupo de ativistas do qual faz parte a arquiteta Laura Sobral instituiu o coletivo A Batata Precisa de Você para enfrentar o desafio de qualificar o espaço com o uso. O coletivo se reúne no largo todas as semanas e exercita a construção do espaço público por meio de música, festa, workshops e colocação de mobiliário. 

Bamboo Você tem medo de ir embora da Batata e tudo voltar ao nada?

Laura Sobral Não, a ideia é ativar o espaço e fazer com que outras pessoas o entendam como possibilidade de realizar atividades culturais, esportivas e de lazer. Depois desses quase três anos de atuação, isso já acontece em grande medida: o largo tem vida própria e não precisamos mais ocupá-lo regularmente nós mesmos. Meu receio é que essa relativa autonomia da sociedade civil no espaço, que foi um processo informal e orgânico com a atual gestão municipal (2013-2016) seja anulada por outra gestão que não entenda sua relevância para o local e para a cidade. Por isso, estamos solicitando à atual prefeitura a consolidação desse processo: a formalização do Largo da Batata como território experimental de gestão compartilhada e de mobiliário urbano inovador, seguindo como um movimento em constante transformação.

B Nesses anos, quais foram as maiores vitórias e derrotas na relação com o poder público?

LS O diálogo relativamente fluido com diversas instâncias da atual administração é a maior vitória. Antes era muito difícil conversar sobre possibilidades. Agora, ainda que a realização de propostas não seja fácil, a conversa existe. A maior derrota é exatamente o fato de ainda ser complicado transformar os diálogos em ações, já que o sistema burocrático no qual o poder público opera é bastante blindado em relação às novidades, especialmente o departamento jurídico.

B Como surgiu A Cidade Precisa de Você?

LS Com vontade de extrapolar as discussões do como fazer cidade para além da Batata, alguns dos participantes desejaram fundar uma associação que atue em três eixos principais no espaço público: gestão compartilhada, cidadania ativa e desespecialização da discussão urbana. No primeiro, pesquisamos maneiras de coordenação do espaço e seus equipamentos que seja mais simétrica entre poder público, sociedade civil e outros atores do território. No segundo, focamos o fazer, a cultura maker e a ativação cultural. O outro eixo é a educação: decodificar e estender a discussão democratizando o debate sobre o fazer urbano. O instituto A Cidade Precisa de Você já tem um ano e meio como ONG e cerca de 40 associados. Fizemos projetos em São Paulo e em outras cidades do Brasil e até representações internacionais, como a conferência Habitat 3, da ONU, em outubro

largodabatata.com.br

Entrevistas com outros criadores de projeto que reinvidicam o direito à cidade estão na Bamboo de novembro, nas bancas.