Marcamos uma conversa com Paulo Mendes da Rocha para discutir os temas que elegemos para esta edição da Bamboo – transformação, conflito e sua relação com a arquitetura –, e terminamos com a sensação de termos feito não uma entrevista, e sim mais uma das muitas sessões de projeto que realizamos nestes mais de 20 anos de colaboração profissional estreita. Seu discurso, de consistência e atualidade impressionantes, não é externo à produção de sua obra – merecidamente reconhecida neste ano por três dos mais importantes prêmios da arquitetura internacional.

Os assuntos e os modos de explicar suas ideias aqui registrados são exatamente os mesmos que ele usa como instrumentos no ato de projetar. Paulo, quando projeta, realiza nas coisas sua visão do mundo, seus desejos e a generosidade de seu pensamento. E, ao discutir as alternativas e os modos de enfrentar as questões postas pelas situações do trabalho cotidiano, nos obriga a manter sempre presente uma visão ampliada do que pode significar estarmos vivos ao mesmo tempo, juntos, e quais são os desejos que escolhemos materializar, como forma de expressar a construção permanente de nós mesmos. 

Transformação e revolução
“Estamos sempre envolvidos em grandes revoluções, no sentido de rápidas transformações. A palavra revolução é muito bonita, mas nós a associamos mal a tiros, guerra e violência. E não é isso. Sempre nos transformamos pouco a pouco, é o famoso tempo histórico – o tempo é um ingrediente fundamental da história, se você não der tempo a formação da consciência não se efetiva. Mas, com os modos de comunicação incríveis que existem hoje, você pode dizer que a velocidade dessas transformações que sempre ocorreram nunca foi tão vertiginosa. Esse aspecto da rapidez é que caracteriza nossa época como profundamente revolucionária, mais do que qualquer outra que tenhamos vivido antes, não é?

Você não pode viver pensando assim, porque senão fica louco. Mas é de fato o que nós estamos pensando agora, nesse bate-papo. Nós nunca somos, estamos nos tornando. Portanto a ideia de projeto, planejamento, acordo, mais do que nunca, de modo mundial, já que somos todos habitantes do mesmo planeta, é fundamental.

O projeto é sempre a ideia de projeto, alimentada por uma visão de uma aspiração da humanidade toda, não de um fato isolado, e tudo que nós construímos presume a transformação.” 

Consciência e política
“Você pode considerar que tudo que fazemos, a arquitetura, a poesia, uma dança, é um discurso sobre essas questões, é a sedução para que outro perceba o que você quer dizer, consiga ler o seu discurso.

Nós estamos condenados ao diálogo entre ideia e coisa. Se você não produz uma coisa, sua ideia não existe. O que nós pensamos só será visível se nós fizermos uma coisa – claro, você tem que entender com isso que poesia é uma coisa, é publicada, escrita, se ficar só na cabeça do poeta ninguém vai ficar sabendo nunca.

A coisa feita, a construção, é um discurso sobre a possibilidade de transformação. É muito importante considerar a arquitetura como uma força, como todas as outras atividades do homem, de caráter eminentemente político. Se você tem consciência disso, procura pôr, no que faz, uma espécie de possibilidade de se perceber essa intenção fundamental.” 

Leia o depoimento completo na Bamboo de novembro, nas bancas.