Quando pensamos em bairros planejados no Brasil, as imagens que vêm à mente tendem a ser infames. Pode ser uma profusão de casinhas idênticas ocupando grandes lotes de periferias distantes, ou conjuntos habitacionais feitos com péssimos projetos-carimbo. A situação não melhora se considerarmos bairros destinados a um público de classe média ou alta. Condomínios fechados com casas similares às de subúrbios norte-americanos, ou genéricas torres de edifícios com varandas gourmet em meio a jardins artificiais. Todos são obrigados a recorrer ao carro para se deslocar. Não há comércio próximo. E a relação com a cidade ao redor é feita pela portaria e pelos muros. Temos centenas de não-lugares assim. Definitivamente, o Brasil perdeu o know-how de como fazer bairros e cidades, ou melhor, de construir urbanidade.

Entretanto, começam a surgir iniciativas para mudar essa conjuntura, entre as quais se destaca o Bairro da Gente. “É uma startup para fazer bairros, isto é, a menor unidade de identidade de uma cidade, para criar cidades mais humanas”, afirma Iury Lima, que fundou a empresa em parceria com a libanesa Raouda Assaf, arquiteta formada em Santos (SP) que desenvolveu estudos acerca de cidades árabes tradicionais. Por sua vez, Iury trabalhou no mercado financeiro e como administrador de empresas, tendo dirigido projetos de bairros planejados em grandes construtoras. Porém, percebeu quão errados são o modelo de negócio e o padrão urbanístico praticado no Brasil pelas empreiteiras. Então, fez algo incomum no meio corporativo nacional: buscou literatura sobre urbanismo. Foi ler Morte e Vida de Grandes Cidades, de Jane Jacobs; e Uma linguagem de Padrões e a série de quatro livros The Nature of Order, de Christopher Alexander, e aproximou-se da pesquisa do dinamarquês Jan Gehl, que ganhou reconhecimento com o livro Cidades para Pessoas.

Projeto-piloto

Criaram o Bairro da Gente em 2012: montaram um plano de negócios, apresentaram a diversos agentes públicos e privados, buscaram investidores e parceiros, até encontrar as condições para seu projeto-piloto na cidade de Limeira, no interior de São Paulo.

O terreno de 300 mil m2 foi, por décadas, ocupado por um aeroclube. Com o crescimento da cidade, o lote foi envolvido pela malha urbana. Com a desativação da pista de pouso, a prefeitura, proprietária da grande gleba, lançou um decreto convidando empresas para a elaboração de um estudo urbanístico para o local. O Bairro da Gente foi a única organização interessada em participar dessa parceria público-privado.

Com uma estratégia bottom-up, fez-se primeiramente um grande mapeamento multidisciplinar. Raouda define essa etapa como “um levantamento de identidades, do que as pessoas queriam e de como as pessoas se agrupavam”. Usando como base uma escola pública vizinha, a equipe composta por arquitetos, urbanistas, psicólogos e antropólogos fez atividades com a comunidade para descobrir quais eram seus anseios. Desse processo participativo, foi coletada uma miríade de informações. 

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