Recém-saído da faculdade, o designer vai para a rua com seu caderno repleto de belos desenhos. Bate à porta de diversas lojas e, esperançoso, mostra com orgulho seus croquis. O lojista se decepciona, pois aqueles rabiscos, apesar de demonstrarem talento criativo, não têm o gosto de seu consumidor ou estão fora de sua capacidade de fabricação. O jovem designer, por sua vez, se sente injustiçado. Afinal, aquela marca não pagou pelas suas horas de trabalho. Por que ele deveria desenhar para ela sob medida?

A cena vem se repetindo incansavelmente no mercado de design. E empobrece a economia criativa no Brasil. Sem oportunidades, remuneração adequada ou incentivos, muitos jovens designers acabam desistindo da carreira. Ciente já há algum tempo da situação, a empresária Mariana Amaral decidiu quebrar o círculo vicioso. “Quem vai começar a arrumar o mercado? A fábrica? O designer? Eu me propus”, afirma. Nascia, em dezembro de 2015, a agência de designers Mactalents, que dá auxílio em aspectos como a prospecção de clientes, identidade e posicionamento de marca, e contratos. Formada em jornalismo, com MBA em construção de marca, há dez anos à frente de uma assessoria de imprensa, a Mariana Amaral Comunicação (daí a sigla MAC), e uma apaixonada por design, Mariana ambicionava, assim, impulsionar as carreiras dos novos talentos brasileiros.

Logo, já eram 12 estúdios de design agenciados, entre eles: Ana Neute, André Poli, Bruno Simões, Estevão Toledo, Leo Capote, Marcelo Caruso, Outra Oficina, Rodrigo Almeida, Ronald Sasson e 80e8. Com esse time jovem, talentoso e ansioso por trabalho, Mariana foi procurar parcerias com marcas já estabelecidas no mercado. “O fabricante valoriza o design, porque ele sabe que o produto assinado vende mais”, avalia. Para a Artefacto, elaboraram releituras de uma cadeira icônica, que resultaram numa exposição. Para a Santa Monica, desenharam tapetes autorais, que já chegaram às lojas e são sucesso de vendas. As marcas ganham a garantia de que o produto terá alta qualidade e será desenhado especialmente para aquela coleção.

Porém, a tarefa de arrumar o mercado rapidamente revelou suas dificuldades. “Algumas empresas disseram que não pagariam pela cessão de direito autoral. Somente 2% de royalty sobre o preço de fábrica”, relembra Mariana. Em vez de se lamentar, Mariana deu um passo a mais. Montou sua própria editora de mobiliário, a Itens, lançada no último DW!, em agosto. Agora, além de orientar as carreiras, ela pode cuidar da fabricação e comercialização de algumas peças. As duas empresas atuam independentemente – a Mactalents, além de fazer a curadoria para algumas coleções da Itens, se dedica a cuidar do relacionamento e dos contratos entre designers e outras marcas do mercado. Aos designers, basta desenhar: dentro de briefings coletivos, como a coleção Cinéticos, inspirada na arte cinética, mas que ainda assim estimula a identidade autoral, ou nas coleções próprias de cada marca, como é o caso de Rodrigo Almeida e Ana Neute. 

Ana, inclusive, é uma das mais jovens do grupo. Aos 30 anos, ela avalia que não teria fôlego para ter a própria empresa. Logo que saiu do curso de arquitetura da Escola da Cidade, tinha uma produção bem pequena, feita manualmente sob demanda de amigos e conhecidos. Agora, com a Itens cuidando de logística e vendas, consegue abraçar mais projetos e oferecer acabamento profissional das peças. “Antes, eu tentava adaptar o mundo à minha ideia; agora, procuro conhecer o mundo para criar”, reflete. Ainda assim, sua produção segue experimental. “Eu gosto de arriscar, pesquisar, explorar os limites dos materiais. Enfim, sou designer, gosto de ter ideias. A parte da negociação, deixo para a Mariana”, conclui.

mactalents.com