Virou rotina: algumas vezes por dia o pessoal do Museu do Amanhã, na praça Mauá, centro do Rio, recolhe do chão papel suficiente para encher sacos enormes. Não se trata de falta de educação dos visitantes. É que na exposição sobre Santos Dumont, em cartaz por lá, todo mundo é convidado a fazer seu aviãozinho de papel que, na sequência, será arremessado em uma das pistas do aeroporto cenográfico.

A mostra O Poeta Voador reúne o que mais interessa a seu curador, Gringo Cardia: fantasia e educação.

Arquiteto, cenógrafo, artista gráfico, fotógrafo, diretor, coreógrafo e o que mais o instigar, Gringo está nos créditos de mais de 200 capas de disco, de nomes como Chico Buarque, Cássia Eller e Marisa Monte, além de shows de Maria Bethânia e dos Novos Baianos e de mais de 80 videoclipes de nomes igualmente importantes da música brasileira. Isso sem contar a parceria de 20 anos na criação e cenografia dos espetáculos da coreógrafa Deborah Colker. 

“Tenho muitas frentes de trabalho. Mais jovem, eu era afoito por tudo. Agora, quero focar em projetos culturais”, conta o gaúcho, nascido Waldimir Cardia na pequena Uruguaiana (RS) e radicado no Rio há mais de 40 anos. 

Gringo anda envolvido na concepção de espaços voltados à cultura mundo afora. O primeiro foi o Museu das Telecomunicações, no Rio, aberto em 2007. Depois vieram o Museu da Cruz Vermelha, em Genebra (Suíça), o Memorial Minas Gerais Vale, em Belo Horizonte, e o memorial Casa do Rio Vermelho, sobre Jorge Amado e Zélia Gattai, em Salvador. Agora toca dois novos projetos: o museu do Ilê Axé Opó Afonjá, em que revisita o candomblé da Mãe Stella de Oxóssi, em Salvador, e outro sobre o ator Marco Nanini, no Rio. “Museus são grandes escolas que ajudam a perpetuar histórias exemplares para as gerações seguintes. No Brasil falta isso.”  

Ilha da fantasia
Gringo busca extrair humor de tudo o que faz. “Sou da ilha da fantasia, gosto da coisa lúdica e exagerada, das cores explosivas. Existe muito trabalho lindo, mas que é seco, sem vida… Sou de uma geração pop, dos filhos de Andy Warhol, aquela coisa do tudo ao mesmo tempo. Já fui punk, mas um punk colorido e alegre.”

Começou no mundo artístico no início dos anos 1980 fazendo cartazes e material gráfico para companhias de teatro alternativas, como Asdrúbal Trouxe o Trombone, de Regina Casé e Luiz Fernando Guimarães. Para assinar o cenário das montagens foi um pulo.

Nessa época, conheceu Deborah Colker, com quem já fez cerca de vinte projetos, e atualmente produz um baseado em um poema de João Cabral de Melo Neto. Gringo participa da concepção dos espetáculos desde os primeiros ensaios. “É o trabalho de cenografia mais pleno que faço. Conceituamos tudo juntos – o cenário é mais um bailarino em cena.”

Foi a coreógrafa quem o convidou, há oito anos, para o projeto mais desafiador que ele realizou até hoje: Ovo, do Cirque du Soleil, ainda em cartaz. Gringo teve que morar por praticamente dois anos em Montreal, no Canadá. “Eles buscavam a novidade mas, ao mesmo tempo, queriam nos enquadrar no esquema deles. Foi uma luta vitoriosa, conseguimos mudar aquela música new age, tudo meio igual, pra forró, funk. O papel do artista é estragar a festa e fazer uma outra. Se tá tudo igual, vamos fazer diferente.”  

Leia a matéria completa sobre Gringo Cardia na Bamboo de dezembro, nas bancas.