Em um de seus textos mais conhecidos, o filósofo político italiano Norberto Bobbio definiu democracia como o exercício do poder público em público – um governo voltado ao bem comum em que não há segredos. Nas últimas décadas, o conceito virou sinônimo de uso de tecnologia. Governos passaram a recorrer a ferramentas digitais para aumentar sua transparência e incentivar a participação da sociedade. A estratégia, que vai bem na teoria, nem sempre se converte em resultados práticos. Políticos usam muito mais esses recursos para fazer pirotecnia do que para realizar transformações concretas. “Tecnologia não é mágica, é uma ferramenta”, diz o cientista político Miguel Lago. “Existe muito marketing e pouca melhoria de fato”, afirma. 

Desde 2011, Lago e a economista Alessandra Orofino dedicam-se a buscar maneiras de usar a tecnologia para fazer surtirem efeitos reais na relação entre cidadãos e poder público. O primeiro passo da dupla de cariocas foi a criação da ONG Meu Rio, que monitora prefeitura, vereadores, governo do estado e qualquer agente capaz de interferir no funcionamento da cidade. Quando identificam que alguma medida de benefício duvidoso está prestes a sair do papel, desencadeiam um ataque de fazer inveja aos soviéticos da Segunda Guerra. 

Foi o que aconteceu no início de novembro. No dia seguinte ao segundo turno da eleição que elegeu Marcelo Crivella (PRB) o próximo prefeito carioca, a Câmara Municipal tentava votar um projeto de lei que garantiria mesada vitalícia de 15 mil reais aos vereadores que também fossem funcionários públicos e se elegessem por três mandados consecutivos ou quatro intercalados. Por um mecanismo batizado de Panela de Pressão, a Meu Rio conseguiu que em menos de 24 horas 40 mil de seus 200 mil apoiadores enviassem e-mails de protesto aos parlamentares. O sistema pode desencadear ainda bombardeios de ligações para os gabinetes, organizando uma fila virtual para que os ativistas sejam acionados somente quando tiver alguém na linha para atendê-los. Com tamanho barulho, nem mesmo o vereador autor do projeto, João Cabral (PMDB), apareceu para votar na própria ideia. 

Mobilizações construtivas
Além de artilharia, a ONG tem ações propositivas. É o caso da Legislando, em que cidadãos e parlamentares usam uma plataforma on-line para criar projetos de lei em conjunto. Já a ferramenta De Guarda permite monitorar à distância a integridade de lugares ameaçados. Graças a ela, por pouco a Escola Municipal Friedenreich escapou de virar estacionamento para os frequentadores do estádio do Maracanã, como previa um dos projetos de preparação para a Copa do Mundo da prefeitura e do governo do estado. Ao primeiro sinal de perigo, vigias on-line acionavam um botão para que voluntários fossem até o local evitar a demolição da instituição. Ironicamente, hoje a Friedenreich detém o melhor Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) da escolas públicas cariocas nos anos iniciais do ensino fundamental.

“As mobilizações são voltadas a pedidos concretos e factíveis, aos quais só cabe ao governo responder ‘sim’ ou ‘não’”, resume Lago. Em cinco anos, a Meu Rio obteve 60 respostas positivas, incluindo até mesmo uma alteração na Constituição do Estado para que a indicação a cargos comissionados no Executivo, Legislativo ou Tribunais fosse enquadrada pelos critérios da Lei da Ficha Limpa. 

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