A filosofia do engenheiro Ove Arup (1895-1988) é precursora de um fazer arquitetônico em que arquitetura e engenharia atuam juntas desde a concepção mais primordial do projeto. O modelo contrário – no qual o engenheiro apenas viabiliza uma ideia já previamente concebida pelo arquiteto – parece pouco compatível com o cenário atual, em que a evolução de técnicas construtivas e da tecnologia digital tornaram a elaboração de um projeto bem mais complexa.

A prática vanguardista de Arup está exposta até 6 de novembro no Victoria & Albert Museum, em Londres, na mostra Engineering the World: Ove Arup and the Philosophy of Total Design. Seu lema é o “total design”, que advoga um processo colaborativo desenvolvido por profissionais com competências diversas envolvidos na criação desde o início. Novas formas de atuação surgiram entre ele e arquitetos como Renzo Piano, Richard Rogers e Norman Foster, dando início a um estilo arquitetônico em que a engenharia tem papel fundamental na estrutura e na aparência do edifício – o que ajudou a criar o epíteto “starchitect” para esses e outros arquitetos.

Ove Arup fundou sua empresa em Londres em 1938. Estudou filosofia antes de enveredar para a engenharia, e compartilhava ideias com intelectuais proeminentes da época, como Walter Gropius. Seu primeiro projeto como consultor foi para a criação da piscina dos pinguins do Zoológico de Londres (1936), com o uso à época inovador do concreto armado. No pós-guerra, Arup ganhou projeção internacional ao se associar ao arquiteto Jorn Utzon no projeto da Ópera de Sydney, na Austrália. Foi responsável por criar o “spherical geometry solution” (solução da geometria esférica), sistema que permitiu a fabricação das partes constituintes da cobertura do teatro como elementos repetidos. 

A retrospectiva no V&A detalha outros projetos relevantes da Arup. Entre eles, o da Menil Collection (1986), em Houston, Texas, com Renzo Piano e Shunji Ishida, marcado pela cobertura multifuncional feita de painéis refletivos, que, além de cumprir sua função principal, faz com que a luz natural invada os espaços expositivos de maneira difusa, ao longo do dia e das estações do ano, sem prejudicar as obras de arte. Já no Aeroporto Internacional de Kansai (1994), no Japão, também com Piano, o “total design” foi trazido à era digital por meio de uma tecnologia de simulação computadorizada para estudar o fluxo de ar. 

Na parte final, a exposição mostra as inovações mais recentes da empresa, dando sequência à mentalidade iniciada por Ove. Um dos exemplos é Mass Motion, programa desenvolvido para simular o comportamento de milhares de indivíduos dentro de um edifício, atribuindo-lhes características e objetivos individuais, e que permite interferir e adaptar o projeto a partir das previsões geradas. Outro é a fachada bioativa Solar Leaf, constituída de painéis de vidro que funcionam como “fotobiorreatores”, contendo microalgas, água em movimento, nutrientes e ar. Quando ocorre a fotossíntese, as algas produzem calor e biomassa, utilizados para fornecer energia para o edifício. 

A associação frutífera entre arquitetura e engenharia encontra outros expoentes importantes na Inglaterra: o escritório Foster + Partners, que tem um departamento de engenharia dentro de sua própria estrutura; a AKT II, agência de engenharia que já colaborou com arquitetos como Zaha Hadid e Bjarke Ingels; e Cecil Balmond, outro grande nome dos cálculos estruturais high tech, que trabalhou no Arup por 43 anos.

Competências inhouse
Com QG em Londres e sedes em outras nove cidades no mundo, a filosofia de trabalho colaborativo do escritório fundado pelo arquiteto britânico Norman Foster estende seus limites e está em constante evolução. A busca pela prática multidisciplinar no processo criativo já era característica da empresa desde a sua fundação, em 1967, mas recentemente foram formadas duas equipes de engenharia inhouse, lideradas pelo engenheiro estrutural Roger Ridsdill Smith, e pelo engenheiro ambiental Piers Heath. A F+P conta com diversas outras expertises cujos insights são considerados no processo de criação, e a autoria do projetos é atribuída à equipe como um todo.

Em entrevista com Smith, Heath e Grant Brook, sócio e líder do estúdio de arquitetura, o processo foi descrito em detalhe: “A ideia é ter uma rede de pessoas competentes e criativas em diferentes campos – não se tem certeza de como a orquestra vai vibrar, mas, se todos os instrumentos estão à mão, pode-se tocar qualquer peça de música”, comparam. Sobre o processo criativo conjunto, eles afirmam: “Não se trata de determinar de quem é uma ou outra ideia, pois é um processo contínuo e interativo; olhar uma ideia de uma perspectiva diferente pode trazer algo novo, e assim o processo evolui em equipe, não é tudo planejado a priori. Para nós é impossível projetar sem esse diálogo”. O trio arrisca que a abordagem caminha em direção a uma visão que expande o conceito do Ove Arup para uma integração total do design, que vai muito além da estética arquitetônica.

O projeto da F+P para o aeroporto internacional da cidade do México, em processo de licitação para início das obras, é um ótimo exemplo da metodologia colaborativa entre engenharia e arquitetura, a partir de testes exaustivos para alcançar a solução mais coerente. Em razão das condições de solo instáveis, o conceito partiu de uma solução estrutural de uma grande laje que se apoia tenuemente na terra, e de um envelope externo que inclui cobertura e fechamentos laterais numa única superfície em “concha” – com os apoios recaindo diretamente sobre o solo, nos perímetros, e distribuídos internamente pelo espaço, criando colunas afuniladas que realizam uma série de tarefas operacionais e de infraestrutura do edifício e proporcionam o fluxo de ar fresco. Essa solução também permite grandes vãos livres. A estrutura em malha triangulada da cobertura, em aço, com alternância entre fechamentos de vidro e opacos, cria uma pele de 2,5 metros de espessura, que faz o controle térmico de todo o interior.

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