O ano foi movimentado para Claudia Moreira Salles. Em abril, na feira SP-Design, sua produção mais recente ganhou destaque no stand da Etel, que edita o mobiliário da carioca desde 1991. Em agosto, foi a vez de a Dpot dedicar seu espaço na Made ao instigante mancebo Stand By. Enquanto isso, a editora BEI preparava o livro sobre a coleção de luminárias Sintonia Fina, criada para a lumini em 2015 e que lhe rendeu o prêmio de iluminação no Top XXI Design Brasil. 

Em meio a tudo isso, Claudia ainda acompanhou a produção de novos desenhos em uma marcenaria no Brooklyn, Nova York, a serem comercializados pela Espasso, galeria dedicada ao mobiliário moderno e contemporâneo brasileiro. Poltrona, aparador, conjunto de castiçais e a reedição da mesa Canguru, primeira criação autoral da designer, juntaram-se ao mobiliário feito no Brasil em exposição na galeria nova-iorquina, entre setembro e outubro.

A mostra também marcou a estreia do livro, que será lançado no dia 24 deste mês na Dpot, em São Paulo. Com texto de Adélia Borges, entrevista feita por Karen Stein e fotos de Andrés Otero, a publicação revela em detalhes os processos de criação e produção das luminárias, como a fascinante técnica de anodização dos componentes de nióbio, que resulta nas cores iridescentes que marcam as peças.

A seguir, a designer formada pela Escola Superior de Desenho Industrial, no Rio, prestes a completar quatro décadas de trabalho, fala sobre sua produção, a constante busca da expressão com a madeira e a influência definitiva da Bauhaus para criar uma obra que “seduz o corpo e o cérebro”, no feliz comentário do crítico inglês Edwin Heathcote.

Bamboo O último ano foi muito produtivo. Como avalia o período?

Claudia M. Salles Uma coisa engata a outra. Nesses períodos de criação, a proximidade com a produção traz muitos caminhos para explorar. Ao ir às marcenarias e oficinas para acompanhar os processos, acabo tendo outras ideias, vontade de explorar algum material, forma, ou algo que encontro naquele espaço. O banco Eye Beam, por exemplo, que é uma peça única, partiu de um fragmento de um antigo batente de porta que achei por acaso. Aquele pedaço era uma coisa tão expressiva que resolvi fazer algo com ele. Nesse caso, então, não foi uma ideia que surgiu de uma reflexão ou de uma necessidade. 

B Na Espasso, o Eye Beam, entre outras peças recentes, se juntou à Canguru, criada em 1983. Por que escolheu fazer uma reedição?

CMS Foi o Carlos [Junqueira, fundador da galeria] que veio com essa proposta. Talvez a intenção dele fosse mostrar para o mercado americano uma certa “senioridade”, dizer, “olha, ela já está trabalhando há muito tempo”. A Canguru é o meu primeiro móvel autoral. Eu mesma fiz a produção, e procurei a Nanni Movelaria, do Fulvio Nanni, para fazer a venda. Foi um móvel que deu certo considerando-se que era feito artesanalmente, mas parei de produzir um tempo depois. Aliás, porque a quantidade de soldas é muito grande, na nova versão o metal da estrutura foi substituído por madeira, e mantivemos o tampo em fórmica preta, como na original. 

B Por que produzir nos Estados Unidos? 

CMS Há vantagens óbvias: cortam-se gastos com embarque, transporte, desembaraços. Pensando na sustentabilidade, faz muito mais sentido produzir perto de onde o móvel será consumido. As madeiras já são aclimatadas e não sofrem como as brasileiras. E, mais uma vez, o contato com quem faz é determinante. Nesse caso, uma marcenaria de jovens no Brooklyn, com uma qualidade de execução excelente. Alguns deles são designers também, ou artistas, então acrescentaram muito. A cadeira Portuguesa, por exemplo, foi trançada por uma das sócias, uma mão de obra que não tinha conseguido encontrar no Brasil.

Leia a entrevista completa com Claudia Moreira Salles na Bamboo de novembro, nas bancas.